O velho Fusca e seu fascínio incontestável

 

O velho Fusca e seu incontestável fascínio

                      – Celso Gagliardo

O que explica a indisfarçável paixão por aquele carrinho ovalado, que mais parece um besouro de metal? Motor modesto, econômico, limitado — e, ainda assim, capaz de despertar afetos profundos desde que começou a colorir ruas e estradas brasileiras, lá por 1959?

O calendário do tempo puxou o assunto: 20 de janeiro é o Dia do Fusca. Poucos carros alcançaram tamanho prestígio popular a ponto de ganhar data comemorativa, virar personagem de filmes e ocupar lugar definitivo na história da indústria automobilística. Foram cerca de 3,3 milhões de unidades produzidas em São Bernardo do Campo e mais de 21 milhões espalhadas pelo mundo. Números que contam uma epopeia sobre rodas.

Em tempos de poucas marcas e modelos em circulação, o Volkswagen Sedan — nome de batismo do Fusca — destacou-se pela mecânica simples e resistente, pela manutenção acessível e pelo baixo consumo. Aos poucos, a imagem do besouro de rodas foi ganhando credibilidade, respeito e um curioso encanto.

Os mais jovens talvez não compreendam o fenômeno. Não viveram aquela época que hoje soa quase inverossímil. Mas há razões de sobra para tanto alvoroço.

Mais do que uma marca confiável, o Fusca — concebido na Alemanha como um carro barato e popular — transformou-se em depositário de memórias afetivas. Muitos de nós, já maduros, aprendemos a dirigir ao seu volante. Com ele realizamos o sonho do primeiro carro. E do primeiro, sabemos bem, nunca se esquece.

Naquele tempo, poucos tinham automóvel. E quem tinha, destacava-se socialmente. Quem não se lembra da primeira namorada, dos romances da juventude e do velho Fusca servindo de cúmplice silencioso a tantos enlevos?

E a primeira viagem? E a corrida apressada à maternidade, com a esposa em trabalho de parto, voltando depois com o filho nos braços? Tudo a bordo de um Fusquinha. As idas e vindas ao trabalho, à escola, as caronas solidárias que ajudavam a dividir o custo da gasolina. As estradas ruins — de pedra, terra, barro e buracos — e o bravo carrinho superando obstáculos, apontando os dois faróis como quem anuncia: “chegamos”.

São marcas que não se apagam. O veículo sempre presente, que nos serviu — ou serviu a alguém muito próximo — hoje habita a memória afetiva. Tanto que virou objeto de desejo de restauradores e colecionadores, alcançando elevado valor histórico. Muitos ostentam placas pretas. Seus donos formam grupos, promovem encontros, trocam peças, histórias e lembranças. São memórias reunidas em forma de carro.

Mesmo com a produção encerrada em 1996, o valente Fusca ainda circula por aí, especialmente em cidades pequenas e tranquilas, cumprindo com dignidade sua missão.

Não se fabrica mais o velho Fusca. O Beetle. O Besouro. Um clássico que ultrapassou a função de automóvel e se tornou símbolo, objeto de afeto, pedaço vivo da história automotiva mundial.

Quem viveu seu ciclo jamais deixará de carregá-lo no coração — ainda que não consiga mantê-lo ali, colorindo, como uma flor resistente, o canto da garagem.



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