O Brasil em seus tempos de interrogação
O Brasil em seus tempos de interrogação Longe de nós sermos críticos de um país tão iluminado.
Sempre tive orgulho dessa gente trabalhadora, alegre, encantadora e resiliente — dessa capacidade quase infinita de cair e levantar, sem se cansar.
Entretanto, nos últimos tempos, tornou-se impossível não refletir sobre os rumos da Nação diante de tantas notícias ruins, decepções e golpes perpetrados, capazes de afetar até o nosso humor, se não tomarmos cuidado.
Com o volume de informações — verdadeiras e falsas — em circulação, é preciso discernir o que nos cabe daquilo que não nos pertence, sob pena de uma contaminação doentia, de um sofrimento em escala.
Sempre acompanhei a vida pública, a política. Gosto do burburinho e me divirto com as nuances e cenários que o bom coletivo deveria produzir. Sei, contudo, que ali orbitam pessoas com os mais variados interesses e intenções. Aprendi isso desde os idos tempos, em conversas madrugada adentro com tantos amigos da nossa Santa Bárbara, especialmente com o saudoso Adail Ribeiro.
Dessa seara, sei que podem surgir decisões acertadas — e outras nem tanto —, além de desvios de conduta lamentáveis, embora a legislação tente combatê-los, quase engessando a máquina pública. Ainda assim, sempre há quem encontre meios de driblar controles, Tribunais de Contas, Ministério Público, enfim, a própria lei.
Agora, todavia, o caldo parece ter entornado de vez. O noticiário aponta que o próprio Poder Judiciário — até então respeitado e contido — vê-se envolvido em situações comprometedoras, com ligações espúrias de altos ministros ou de seus familiares com movimentos suspeitos, fraudadores e criminosos que empurram o Brasil para a desgraça.
O Judiciário sempre foi nossa esperança de decisões justas, honradas, livres de interesses e da interferência do poder econômico. Para isso, seus agentes mantinham certa distância da vida comum — um munus do cargo, necessário à independência decisória. Longe de holofotes, festas e convescotes.
Isso me remete à juventude, na Santa Bárbara de então. Acompanhávamos o pulsar da cidade e raramente conseguíamos falar com um juiz de Direito. Viviam quase encastelados entre a rotina forense e a vida familiar. Evitavam se imiscuir na vida comum, preferiam o anonimato para julgar com isenção — ou, ao menos, transmitiam essa intenção.
Lembro-me de uma ocasião em que um magistrado de primeira instância revelou certo constrangimento em residir num imóvel disponibilizado pela Prefeitura para moradia oficial do juiz designado. Nada havia de errado, mas a preocupação com a independência decisória falava mais alto.
A democracia é um regime instigante. Pressupõe a divisão de poderes independentes e harmônicos, com “pesos e contrapesos” capazes de evitar abusos, arbitrariedades e a concentração de poder. Um poder vigia o outro.
O problema é que, embora a arquitetura institucional seja engenhosa, os homens não são perfeitos. Muitos vivem à caça de brechas na lei, de fórmulas de compadrio conveniente, protegendo-se mutuamente. As estruturas existem para garantir o bem coletivo, mas continuam dependentes da honradez de quem exerce o poder.
Estamos em ano de eleições. E o que nos cabe?
Que saibamos escolher figuras honradas, ilibadas, com força moral e têmpera de aço. Porque o jogo é duro. E o desafio, imenso.
— Celso Gagliardo
Profissional de RH e Gestão | Jornalista
Texto do blog celsogagliardo.blogspot.com
28 de janeiro de 2026
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