Zé Renato Pedroso, uma quase unanimidade

 


José Renato Pedroso, uma quase unanimidade

                 - Celso Gagliardo

Costumo dizer, em tom de brincadeira e de verdade, que algumas pessoas ultrapassam o simples convívio social e se tornam personagens vivos da história de uma comunidade. São aquelas “quase unanimidades”: bem-quistas, queridas, capazes de juntar afetos como quem coleciona sorrisos ao longo dos anos.

Zé Renato Pedroso é assim. O aniversariante de 7 de janeiro carrega consigo essa rara virtude de ser querido por muitos, respeitado por todos, lembrado com carinho.

Sua história começa pequenina, entre balcões e frascos, na Pharmácia do pai, Waldomiro — uma das primeiras de Santa Bárbara d’Oeste. Mais do que um comércio, aquele espaço era ponto de encontro, território de ideias e conversas, onde a cidade ainda em formação ensaiava seus primeiros passos. Ali, entre receitas e prosas, pulsava o coração da Santa Bárbara de então. Dali saíram ideias que frutificaram, como a fundação do Clube Barbarense, cuja primeira sede nasceu ali perto, na rua Santa Bárbara.

A vida, porém, não poupa nem os cenários mais acolhedores. Zé Renato perdeu o pai muito cedo. Ainda menino, dividia o tempo entre as travessuras próprias da idade — subir em árvores da praça, levar bronca do zeloso seu Benjamin — e a responsabilidade de ajudar a mãe, dona Maria de Lourdes Avelino, na rotina da farmácia.

Foram cerca de vinte anos no ramo farmacêutico. Mas o espírito leve, brincalhão, gozador e agregador jamais se perdeu. O esporte sempre foi sua paixão maior, e foi ali, nas redondezas da farmácia, que nasceu a famosa “Turma da Farmácia”. Da amizade surgiu um time de futebol, que jogava nos estádios da cidade e viajava para fora, levando mais alegria do que competitividade. Histórias, risadas e peraltices que até hoje ecoam nas ranchadas da chácara do Zé Renato.

O tempo passou, a vida seguiu. Mais de vinte companheiros já partiram. Ainda assim, o grupo resiste ao tempo: hoje vovôs e bisavôs, reúnem-se mensalmente para almoçar, rever-se, falar da vida, recordar os bons tempos — e rir, como sempre.

Já maduro, aos 30 anos, cansado da farmácia, Zé Renato decidiu seguir outro chamado: cursou Educação Física na PUC Campinas. Nascia ali um professor vocacionado. Aprovado em concurso público, iniciou sua trajetória no Estado, lecionando na capital e peregrinando por 18 escolas para completar a carga horária. Por onde passou, deixou marcas boas e lembranças afetivas. Em Americana, foram cinco anos na Escola João XXIII; em Santa Bárbara, dezoito anos na escola MAGUI.

Seu grande mestre foi Atílio Dextro, do Emílio Romi, de quem herdou o gosto pelas fanfarras. Foi precursor do sucesso da fanfarra da Escola MAGUI, sob a competente direção da professora Miriam Matarazzo — mais uma semente bem plantada.

Zé Renato é lembrado pelos ex-alunos com afeto genuíno. Foi paraninfo de várias turmas. Certa noite, testemunhei uma cena singela e poderosa: sentados na praça central, assistíamos a uma roda de samba quando uma jovem se aproximou, emocionada, para dizer que havia sido sua aluna e que nunca esqueceu a forma humana com que ele tratava o grupo. Os olhos de Zé Renato, sempre sensíveis, marejaram. Ali estava o retrato do professor.

Vieram também as homenagens: seu nome batiza o CIEP do Parque do Lago. Na Câmara Municipal, recebeu o título de Benemérito do Conselho Regional de Educação Física, por indicação do vereador Gustavo Bagnolli.

No podcast da Rádio Luzes, disponível no YouTube, relembrou passagens da cidade “limitada entre a rua 13 de Maio e o Ribeirão dos Toledos” e, com sua humildade característica, disse: “não era muito inteligente, mas sempre fui muito esperto”. Lavava as camisas do time e, por isso, se escalava de ponta — mesmo sem jogar melhor que os outros. Zé Renato sendo Zé Renato.

Aos 83 anos, bem vividos e com saúde, recebe hoje mais do que parabéns: recebe o reconhecimento silencioso de uma cidade inteira. Seu jeito simples, seu humanismo e sua capacidade de agregar pessoas fizeram — e seguem fazendo — a diferença.

Por isso, Zé Renato Pedroso permanece assim: uma quase unanimidade. E, para muitos, uma unanimidade do bem

Comentários

Anônimo disse…
Grande Professor 👍depois de aposentado...ainda deu aula no Colégio Ideal...para meu filho😊

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