Havia tempestade, e uma velhinha aflita na calçada

 


Havia tempestade, e uma velhinha aflita na calçada

Em tempos sombrios, quando parece que nos afastamos cada vez mais das palavras e do exemplo de Jesus, somos bombardeados por ocorrências trágicas — como o ruidoso caso de Itumbiara, Goiás — que nos deixam atônitos e cheios de interrogações.

Não apenas isso. Casos de desagregação familiar por discussões fúteis, polarizações políticas que rompem laços, vaidades que impõem pensamentos como se fossem verdades absolutas. A violência doméstica, as drogas, o abuso do álcool, o feminicídio — um quadro doloroso que insiste em não recuar.

Mas há também singelas cenas urbanas que passam quase invisíveis e, ainda assim, marcam profundamente. Gestos de relação amorosa, de bem-querer, de entendimento de que o outro é igual — irmão sempre. Esse é o outro lado do copo. O meio cheio do bem.

Paradoxalmente, esses fatos auspiciosos raramente ganham destaque. Não produzem manchetes estrondosas. E aí reside um perigo: cercados por tantos recortes negativos, vamos perdendo a esperança de alcançar um mundo melhor, como o Pai nos ensinou.

Numa segunda-feira recente, em semana quase inteira tomada por temporais, uma cena chamou a atenção de Bianca Pupin, da TV Metropolitana de Piracicaba. Chovia copiosamente. A enxurrada já ultrapassava as guias em alguns pontos, e o fluxo de veículos era intenso na avenida Carlos Botelho.

Uma senhorinha, de sombrinha nas mãos, hesitava na calçada, aflita diante da travessia.

Um motociclista parou.

Ofereceu o braço. Com calma, orientou cada passo. Conduziu-a de uma calçada à outra, sob chuva insistente e pressa urbana suspensa por instantes.

Aquele anônimo esqueceu compromissos, ignorou o aguaceiro e foi simplesmente ajudar. Sem que ninguém pedisse. Sem esperar recompensa. Apenas por empatia — por colocar-se no lugar dela, por sentir sua vulnerabilidade diante das circunstâncias adversas.

Não fosse a sensibilidade da comunicadora, o gesto se perderia no turbilhão que resume nossas vidas apressadas. Seria apenas mais um ato do bem dissolvido na rotina.

E, no entanto, há muitos assim.

Gente simples que trabalha — e muito — no voluntariado. Que auxilia necessitados, doentes, idosos, crianças. Que ampara fragilidades, escuta dores físicas e da alma. Há pessoas materialmente poderosas que fazem filantropia sem publicidade. Artistas e atletas, inclusive. Profissionais de saúde que dedicam parte da semana ao atendimento social gratuito. Igrejas, independentemente de credo, que mantêm programas de promoção humana.

A caridade não deve buscar aplausos. Mas é preciso lembrar: nem tudo está perdido neste mundo de aparente individualismo.

Há quadros que pintam otimismo e permanecem submersos. Cenas que geram sorrisos, não lágrimas. Talvez, se passarmos a enxergá-las com mais atenção, possamos multiplicá-las. Não apenas para reduzir distâncias sociais, mas para viver relações mais saudáveis — com tolerância, aceitação, acolhimento e menos julgamentos.

Isso já é construção de mundo melhor. E, de quebra, também cura um pouco da nossa própria alma.

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