A Bismark que cresceu além do jardim


A Bismarck que cresceu além do jardim

                  - Celso Luís Gagliardo -

As plantas encantam. Enfeitam. Purificam. Perfumam. Nos humanizam, de certa forma.

Um dia, o amigo Aldo, da bela cidade das flores, Holambra, nos presenteou com a muda de uma palmeira Bismarck. Dessas que a gente vê em parques e jardins, explodindo beleza azulada, com suas folhas grandes lá no alto — como braços abertos, distribuídas com harmonia.

Quem dá uma planta finca na terra a amizade — e acaba sendo lembrado por muito tempo.

Já aconteceu também com outro amigo, o Angolini, que um dia apareceu lá em casa, nos idos de 1982, e nos ajudou a montar um jardim ainda insipiente, mãos na terra. Compramos com ele algumas mudas que foram plantadas, cresceram, se expandiram. Não deram frutos, é verdade, mas nos ofereceram flores, perfume e, principalmente, lembranças — do nascedouro, do berço, da terra crua que virou jardim.

E memória boa.

Esta crônica nasceu ontem, à tardinha, quando passei em frente à casa da minha filha Aline. A imponente Bismarck estava lá. Ou melhor — esteve.

Com sua força azulada, adaptou-se bem ao terreno. Foi plantada com amor, cresceu bonita, talvez mais rápido do que o esperado. E foi se agigantando. Ultrapassou o muro, avançou sobre o vizinho, encostou na cerca elétrica. Cresceu além do espaço.

A decisão de cortar uma árvore nunca é simples. Dói. Foi discutida, pensou-se até em replantio — solução bonita, mas que exige uma logística delicada.

No fim, a opção foi extirpar a palmeira.

Felizmente, não havia ninhos de pássaros. Nenhuma vida dependia diretamente dela naquele momento. Mesmo assim, o aperto no coração veio quando vimos o jardineiro montar seu andaime, cano a cano, lance sobre lance, até alcançar o topo. E ali, com a serra, iniciar os cortes.

Como quase tudo que cresce demais, a nossa Bismarck passou do ponto.

E teve que ser retirada.

Ficou o vazio — desses que, com o tempo, pedem um novo plantio. Talvez um arbusto mais adequado ao espaço.

Mas a palmeira permanece em nós.

Como um animal de estimação que parte antes da gente, deixando saudade. Assistimos ao seu crescimento, à sua exuberância surgindo aos poucos, às folhas se abrindo como um sol azulado, oferecendo sombra e beleza.

Foi duro ver, depois, a caçamba amarela cheia. Quem passava pela rua não imaginava que ali, entre restos, repousava — em pedaços — uma bela palmeira Bismarck.

Que bem cumpriu seu papel.

P.S.: Qualquer semelhança com as nossas vidas — quando bem conduzidas para brilhar — é mera coincidência…

Que a gente cresça sempre para o bem, mas sem se agigantar a ponto de exceder e assustar.

Comentários

Anônimo disse…
Há, nesse texto, uma elegância silenciosa que poucos conseguem sustentar: ele fala de uma árvore, mas trata, com precisão, da medida humana.

A Bismarck não erra por crescer — erra por crescer sem limite. E esse é um ponto delicado: o problema nunca está no florescimento, mas na desproporção. O autor conduz a narrativa com sensibilidade ao mostrar que aquilo que nasce do afeto — um presente, um gesto de amizade — pode, com o tempo, exigir poda, contenção, até renúncia. Nem tudo que é belo permanece viável.

A crônica também acerta ao não romantizar a decisão. Cortar dói. E deve doer. Quando não dói, há algo errado com quem decide. Esse incômodo é sinal de vínculo, de consciência, de respeito pelaquilo que existiu e teve valor.

O paralelo com a vida é inevitável — e bem construído. Quantas vezes ideias, certezas ou até o próprio ego crescem além do “jardim”? O texto sugere, com sobriedade, que há virtudes que precisam de limite para continuarem sendo virtudes. Até a grandeza, quando sem medida, torna-se problema.

O fechamento é particularmente feliz: não se trata de não crescer, mas de crescer com ajuste ao espaço, ao outro, à realidade. Há uma ética implícita aí — quase clássica — de equilíbrio, de proporção, de consciência do entorno.

Em síntese, é uma crônica sobre poda — não da árvore, mas do excesso humano. E, como toda boa poda, não destrói: preserva o que ainda pode florescer.
Sérgio disse…
Bela crônica.
A natureza é auto suficiente e também a impulsionamos com nossas mãos ao plantarmos e quando " a partir de" passamos acompanhar sua evolução. A satisfação é divina e a recompensa pelo ato vai e desenvolvimento junto. Quando algo (corte, secura, etc) radical acontece, deixa um vazio , não só na visualização como também na alma.

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