Uma loja de som entre encontros, sonhos e encantos

Uma loja de som entre encontros, sonhos e encantos                                                             Celso Gagliardo

Uma loja de aparelhos de som usados oferece sabores que vão muito além da simples compra e venda. Um verdadeiro santuário — não apenas para músicos profissionais ou amadores, mas também para entusiastas do áudio, nostálgicos em busca de qualidade sonora.

Há lojas com verdadeiras relíquias: o charme vintage, a valorização do vinil e as lembranças de toca-discos, tape decks, receivers analógicos iluminados, caixas de madeira de marcas renomadas — de uma época em que os equipamentos eram feitos para durar, robustos.

É o caso da Ficha Som, que conheci por anúncios na Tribuna e que um dia visitei no centro da plácida São Pedro. Ali, há anos, dirigida pelo sr. Fischer — homem de simpatia fácil e um bigodinho que desenha o sorriso no rosto. Imagino que, de seu nome, tenha vindo a corruptela “Ficha Som”, simplificada para a denominação comercial.

Foi conversando com o comerciante que acabei adquirindo um teclado eletrônico. Negociamos — e parte do pagamento se deu com uma televisão que eu tinha disponível. Gozador, seu Fischer garantiu, ao me despedir, com olhar maroto:

— “…e quando ficar famoso, vê se vem visitar a gente aqui.”

Dois anos depois — ainda aluno de teclado, e nada famoso — lá estava eu novamente, levando o instrumento para uma limpeza. Ali também se consertam aparelhos.

Era manhã de sábado. E, na loja, alguns músicos da cidade improvisavam uma gostosa roda de MPB — violão e voz, acordeom, percussão. Um som leve, bom de ouvir. O anfitrião, entre um acorde e outro, oferecia aos fregueses café e pão de queijo.

Por momentos, parecia que os instrumentos conversavam entre si, em harmonia e ritmo.

A imaginação vai longe: quantos atendimentos o sr. Fischer e seus auxiliares já realizaram ao longo dos anos, materializando sonhos de jovens músicos — ou mesmo de profissionais? Quantos ali se encorajaram a adquirir um equipamento para aprender ou se aprimorar, e hoje participam de cultos e missas, levando a música como forma de expressão e fé?

Há momentos em que somos surpreendidos — instantes que nos atravessam com uma boa sensação e alegram o viver. A música tem esse poder.

Em tempos por vezes ásperos, nada mais adequado do que um encontro inesperado com ela — ainda que dentro de uma loja de instrumentos.

E, por isso, é justo reconhecer quem mantém esses espaços vivos: recuperando instrumentos, comercializando usados em bom estado e, muitas vezes, facilitando o acesso de muitos à iniciação musical — afastando-os de caminhos menos sonoros.

A sociedade, em silêncio — e em música — agradece.

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