O sebo, o tempo e um pouco de prosa


O sebo, o tempo e um pouco de prosa

              — Celso Gagliardo

Neste século XXI de extraordinário avanço tecnológico, a gente se depara com algumas atividades típicas do passado que persistem, teimosamente.

É o caso dos chamados “sebos”, essas livrarias que compram, vendem ou trocam livros usados e, às vezes, materiais antigos. Algumas se especializam na comercialização de obras raras e seminovas, a preços acessíveis. Com o valor de um lançamento em livraria de shopping, o leitor consegue adquirir até três títulos em um sebo — inclusive online.

E por que o estranho nome “sebo” para uma livraria de usados? Diz-se que vem do latim sebum, que quer dizer “gordura”. A ideia é que as obras fiquem “engorduradas” pelo manuseio constante — uma marca do tempo e das mãos que por elas passaram.

Nas lojas físicas dos sebos, especialmente nas grandes cidades, é comum nos depararmos com pessoas garimpando edições esgotadas, literatura, gibis e livros técnicos.

E eles seguem resistindo ao impacto tecnológico. Ao contrário das bancas de jornais, que se reduziram drasticamente ou se transformaram em pequenas lojas de variedades, os impressos vêm limitando suas edições. O sólido jornal O Liberal, de Americana, por exemplo, após reduzir seu formato, está passando a circular em papel apenas aos finais de semana. Antes dele, outros já se extinguiram ou migraram exclusivamente para o digital.

As livrarias também sofrem — é natural. Talvez os sebos, em menor escala, resistam por oferecerem livros em condições mais acessíveis e, ao mesmo tempo, por saberem usar a tecnologia a seu favor. Plataformas como a Estante Virtual conectam milhares de sebos físicos a leitores de todo o país.

O que motivou estas reflexões foi um encontro que tivemos na placidez da cidade de São Pedro. Na casa do sr. Roberto Vicente, que há muitos anos conduz, a partir do próprio lar, um sebo virtual chamado “Cantinho do Poeta”.

Deixamos ali três caixas de livros de nossa coleção. Ele ficou com quase todos — e isso acabou garantindo, de forma curiosa e simbólica, o custo do combustível da viagem.

O mais importante, todavia, é a destinação dos livros que — em bom estado de conservação — permanecerão “vivos”, disponíveis e à disposição do leitor. Faz bem difundir cultura e conhecimento.

A tranquilidade da cidade favoreceu um dedo de prosa. O livreiro, seu Roberto, atravessa dias de tristeza, em luto. Perdeu a companheira de mais de 50 anos de vida em comum. De cabeça baixa, filosofou: “a gente ganha a liberdade e não sabe o que fazer dela…”. Ainda assim, mantém-se firme na rotina de comprar, catalogar e armazenar — em dois espaços — alguns milhares de livros. Recebe os pedidos, em sua maioria pela Estante Virtual, e faz a postagem diretamente aos clientes.

Indagado por este insistente repórter da vida, seu Roberto afirmou que o avanço digital, dos e-books, pouco o afetou. Segundo ele, muitos leitores ainda preferem o livro em papel. Há casos de clientes que começam a leitura no digital, se cansam e recorrem ao livro tradicional no sebo para concluir. Suas vendas seguem firmes, especialmente de obras voltadas à doutrina espírita — “o que tem, vende”.

E assim, entre perdas e páginas, seu Roberto segue — guardião silencioso de histórias que não lhe pertencem, mas que ele insiste em manter vivas.

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