O fechamento das Bancas de jornais e cheiro de vida
>>> Conectado à informação, frequentei por muitos anos bancas de jornais e revistas para apreciar as enfileiradas manchetes. A Internet fechou muitas bancas. E quando a de meu bairro também baixou sua porta fiquei cabisbaixo, refletindo... e deu essa crônica, à época publicada no Liberal.
- Celso Gagliardo -
Sempre que vejo um comércio ou serviço baixar as portas, meu coração dá um tropeço. Não é só pelo negócio em si — é pela história que se fecha junto. Ali houve sonhos, conversas, correria, gente entrando e saindo, dinheiro trocando de mãos, ideias trocando de donos.
A tal “crise econômica” costuma levar a culpa, e não é de se negar que ela é vilã de muitos fechamentos. Mas, como diria minha avó, nem sempre é só a gripe: às vezes é também a friagem, a chuva e o vento. A tecnologia avança, os hábitos mudam, e quem não se adapta… fica para trás.
Foi o que me ocorreu quando vi a banca de jornais do bairro Colina, ali na praça da Igreja de São Benedito, fechada. Não há mais a Cátia ou seu tio para nos receber com um “bom dia” e separar aquela revista ou jornal que gostamos. Por muito tempo, a banca foi mais que um ponto de venda: era ponto de encontro, estação de notícias.
Quem vende jornais, revistas, figurinhas e livros é mais que comerciante: é distribuidor de cultura, fornecedor de assunto para conversa, patrocinador de café de esquina. Hoje, com a Internet, quase ninguém mais vai à banca. Perdemos um pouco de convívio e ganhamos em velocidade… mas também em frieza digital.
Lembro-me das tantas manhãs de domingo indo à rodoviária de Americana para buscar meu jornal e puxar prosa com o amigo Jonas Godoy, de saudosa memória. Era um ritual que valia tanto pelo papel impresso, quanto pelo “bom dia” dito com sinceridade.
No fim, tudo tem seu ciclo. E este velho coração saudosista, que já viu tanta porta abrir e fechar, precisa se conformar e seguir em frente. Mas, confesso: ainda acho que uma cidade sem banca de jornais perde um pouco do seu cheiro de vida.
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