Amoras, lembrando o sabor da infância
Amoras, lembrando o sabor da infância
– Celso Gagliardo –
Uma das minhas tarefas atuais é recolher amoras, quase diariamente, de um pezinho plantado há pouco tempo, primeira carga. A muda veio da conhecida feira de produtores rurais da cidade de São Pedro, onde a agricultura familiar pulsa forte e viva.
Hoje, ao receber uma foto-mensagem do engenheiro ituano Zenaro — que conheci no setor de mineração, ativista, mateiro dos bons, protetor de pássaros e plantador de árvores — mostrando uma caixa cheia de amoras, senti-me motivado a escrever estas linhas para o blog celsogagliardo.blogspot.com. Afinal, essa frutinha simples e doce adoça nossas vidas na primavera-verão. Colher amoras é um processo interessante. Nossos olhos buscam no pé as "garrafinhas" vermelho-escuro. E nao enxergamos todas sob um mesmo ângulo. Como um fotógrafo, vamos fatiando os galhos e encontrando os " tesouros", entre as folhinhas verdes em formato de coração.
Renato Teixeira, expoente musical de nossa geração, já havia dado voz a esse encanto em 1979, com sua canção singela sobre a Amora:
“Depois da curva da estrada / Tem um pé de araçá / Sinto vir água nos olhos / Toda vez que eu passo lá... / Vou contar para o seu pai / Que você namora / Vou contar pra sua mãe/ Que você me ignora .../ Vou pintar a minha boca / No vermelho da Amora / Que nasce lá no quintal / Da casa onde você mora”.
Quando plantei a Amoreira, imaginei que logo seria disputada pelos pássaros, como acontece com o figo, as pitangas ou até com a ração do gato. Mas, para minha surpresa, eles a ignoram, assim como fazem com a acerola. Talvez algum ornitólogo explique o mistério — quem sabe a frutinha, com seu aspecto levemente peludinho, não lhes seja tão atraente.
Rica em vitamina C, K, manganês, fibras e inúmeros benefícios para a saúde, a amora traz propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias, ajudando a prevenir doenças. Pode ser degustada ao natural ou em sucos, geleias, mousses, tortas e até em chás preparados com folhas e caules.
As amoreiras, porém, não são exclusividade de ninguém. Estão por aí, em quintais, chácaras e até ruas e praças, presenteando quem passa. O chão costuma se cobrir das frutinhas caídas ao vento, como tapete colorido de generosidade.
Essa época de colheita nos transporta à infância: subir na árvore, colher com as próprias mãos, se lambuzar de vermelho e rir sem culpa. Há muitas amoras miúdas e discretas, e outras carnudas, sedosas e suculentas. Basta um leve aperto para soltar aquele líquido intenso que mancha dentes, boca, mãos e roupas. Marca da infância livre, compartilhada, de pés descalços e descobertas da natureza — tão diferente dos frios arquivos digitais de hoje.
Que essa temporada doce se prolongue, e que possamos colher amoras ainda por algum tempo — sempre deixando algumas para os pássaros que chegam antes de nós. Eles também são bem-vindos.
No fim, fica o gosto agridoce da memória: a boca pintada de vermelho ameaçando um beijo vampiro, as travessuras ingênuas que o tempo da infância permitia. - 29 set 2025 -
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