"Fica, doutora Bárbara", é um alento

 



“Fica, doutora Bárbara" é um alento                                               - Celso Gagliardo –

Os serviços de saúde formam a espinha dorsal das administrações públicas. Dias atrás ouvi o ex-prefeito José Maria de Araújo Jr., que por três mandatos dirigiu a vida pública barbarense, advertir que os municípios precisam de mais recursos. A distribuição do que se arrecada não é justa diante do volume de serviços que se exige justamente onde a vida acontece — na ponta, no bairro, no cotidiano do cidadão.

Os prefeitos caminham sobre o fio da navalha: precisam cuidar da infraestrutura, habitação, segurança, cultura, lazer e até do entusiasmo das festas populares — com artistas e bandas caríssimos — enquanto os serviços de saúde, tantas vezes, estão aquém das necessidades. Surge então o coro das críticas. É difícil uma cidade dar conta de tudo com adequação; o cobertor insiste em ser curto.

Mas o que me move a escrever é uma nota da mídia digital Portal Novo Mundo relatando um movimento popular no bairro Praia Azul, em Americana, contra a remoção da pediatra e médica da família, dra. Bárbara.

Não conheço a profissional, mas li dezenas de comentários de moradores daquela região, indignados com a sua saída. Falam de atendimento humanizado, de educação, do carinho que seus filhos têm ao serem cuidados por ela, e de tantas outras considerações que revelam mais do que apreço — revelam vínculo.

Fiquei imaginando o quanto essa mulher deve ser diferenciada em seu trabalho. O que leva pais e mães a deixarem suas casas num fim de semana e se reunirem diante de um Posto de Saúde apenas para pedir que ela ali permaneça? E, ao que consta, não foi ela quem pediu remoção.

A saúde é o nosso bem mais precioso — embora tantas vezes a negligenciemos. E é raro vermos movimentos assim, quase sempre silenciosos, brotarem em reconhecimento a uma dedicação incomum. Afinal, na média, o atendimento costuma ser rápido, frio, técnico.

Os profissionais da saúde — médicos, dentistas, fisioterapeutas, educadores físicos, enfermeiros, atendentes — vivem desafiados. A população está ansiosa, agitada. Muitas doenças têm fundo emocional e pedem mais que diagnóstico e receita: pedem escuta, paciência, acolhimento. Há outras carências por trás das queixas, até aquelas que se escondem em pequenos desabafos.

É verdade: o leitor pode pensar que o profissional da saúde pública não dispõe de tempo — nem é remunerado à altura — para tanta sensibilidade. Mas aí entramos no terreno das relações entre prestadores de serviços e seus contratantes. Espera-se excelência até o fim do contrato, e isso não deveria ser utopia.

Que movimentos como o que defende a permanência da dra. Bárbara se multipliquem. São, talvez, a melhor forma de perceber que um bom trabalho está sendo feito — um trabalho que honra o paciente e dignifica a profissão.

Imagino como essa médica deve estar se sentindo: valorizada, tocada. E talvez devesse ser ouvida pelos colegas, para que seu modo de cuidar — esse jeito de coisa boa, que agrada na forma e no conteúdo — se espalhe.

Porque o grito de “fica, doutora Bárbara” soa, no fundo, como um alento em nome de todos aqueles que honram a valorosa profissão. Desta feita o nome em destaque é Bárbara, mas bem que poderia ser... Aline, Maria Luiza, Rafael, Jenifer, Renam e outros mais sempre bem lembrados.

- 17 nov 2025 -

Comentários

Silvania Dollo disse…
Celso, parabéns! Vc, sempre com considerações muito oportunas no seu texto sensível e tão bem escrito. Realmente, existem médicos e “médicos”… Dra Bárbara, com certeza pertence a classe dos que honram a profissão, que olham nos olhos, praticam a escuta e que dispensam ao paciente um atendimento humano.
Fica dra. Bárbara!!
Sérgio disse…
Celso sempre sensível aos acontecimentos que merecem serem reconhecidos, nesse mundo tão carente de empatia. Que se revelem e se reconheçam mais Barbara's.

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