O policial que combatia as drogas não chegou à ultima operação


O policial que combatia as drogas não chegou à última operação

                   — Celso Gagliardo


O Brasil vive a epidemia das drogas — um mal que atravessa fronteiras, invade cidades e fere famílias. Basta andar pelas ruas com olhos atentos para perceber: inquietação em rostos jovens, vidas deslocadas do rumo, presenças que evitam nosso olhar.

É um sinal silencioso de que algo não vai bem.

Nesse ciclo nada virtuoso, acumulam-se malefícios, mazelas, histórias interrompidas. O tráfico alimenta o crime organizado, entrega ilusões embaladas em pó e fumaça, promete bem-estar fugaz e deixa rastros de destruição — física, emocional, familiar. Uma corrente de negatividades que se espalha como formigueiro em terra seca.

A polícia, incansável, tenta frear essa maré. Inteligência, apreensões, prisões. Um trabalho necessário, duro, quase sempre sem a recompensa da mudança imediata. É como enxugar gelo, mas é preciso tentar — todos os dias.

Foi em uma dessas tentativas que o investigador André Miyasaki deixou sua casa em Piracicaba, despedindo-se da esposa e dos dois filhos na madrugada silenciosa de uma sexta-feira. Seguiu pela SP-304 para se juntar à equipe da DISE de Americana. Iriam abordar um veículo suspeito de transportar drogas.

Talvez André revisasse no caminho, mentalmente, os passos da operação, como sempre fazia.

Mas próximo de Santa Bárbara o inesperado se impôs: ele perdeu o controle da direção, o carro capotou e, aos 49 anos, o policial não chegou à sua última missão. Ficou ali, no asfalto frio, um homem que dedicava a vida a proteger tantas outras.

A tristeza se espalhou entre amigos, familiares e colegas policiais — tristeza pesada, dessas que não cabem em palavras.

Mais uma vez a vida nos lembra de sua fragilidade. Um sopro — e tudo muda.

E por mais que tentemos, há horizontes que não alcançamos e respostas que não nos são dadas.

Mesmo sem André, os colegas seguiram adiante. Batizaram a ação de Operação Samurai, em sua homenagem.

O motorista do caminhão, de Palmas (TO), levava banheiros químicos. Entre eles, escondidos, estavam 2.021 tijolos de maconha, totalizando 1.507 quilos da droga.

A operação foi bem-sucedida — mas desta vez não houve comemoração. Apenas silêncio. E cada um, recolhido em seus próprios pensamentos, tentando compreender a vida e seus caminhos abruptos.

O Natal se aproxima. E em uma casa de Piracicaba a cadeira do André ficará vazia. A saudade, não. Que Deus conceda força à família para atravessar este tempo de dor.

André partiu a caminho do trabalho, pouco antes de impedir que mais drogas chegassem às ruas. Os desígnios foram assim, e nós seguimos tentando entender.         - foto de O Liberal

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