Reflexões de Natal junto ao Papai Noel


Reflexões de Natal junto ao Papai Noel

                 — Celso Gagliardo

Há períodos em que a vida pede revisão. Olhar para o que passou, projetar o que está por vir. Fechar o ciclo do ano nos torna mais sensíveis — talvez porque o Natal se aproxime, talvez porque o Ano Novo bata à porta trazendo promessas de recomeço. Todos desejamos um futuro próspero. E, ao fazer esse balanço silencioso, somamos ganhos e perdas, dores e aprendizados. O que foi bom. O que doeu. Doenças, despedidas, negócios que não floresceram. Quem passou ileso por tudo isso?

Por uma dessas voltas que o acaso dá, aceitei, de forma voluntária, acompanhar Papai Noel em uma viagem que o trouxe da longínqua Lapônia, na Finlândia, até o Brasil. Vestia seu vermelho habitual, embora o calor da manhã fosse um contraste curioso com sua terra gelada. Estava animado. Ansioso por reencontrar crianças e famílias em situação de vulnerabilidade social, afinal, o Natal se aproximava — e ele sabe bem o peso simbólico dessa data.

No retorno, perguntei como havia sido a recepção. Ele respondeu com a serenidade dos que já viram de tudo. Disse que foi cercado, como acontece com os Papais Noéis modernos. Em algumas casas, a acolhida era alegre: crianças esperando o instante mágico, olhos acesos, mãos estendidas para balinhas, docinhos e pequenos presentes. Alguns pequeninos até se agarravam à perna do velho Noel de barba branca, talvez querendo dizer, sem palavras, que desejavam que ele ficasse. Para sempre. Ali.

Mas, com sua honestidade desarmante, Papai Noel contou também sobre outros ambientes. Locais onde a recepção foi fria, distante, sem encanto festivo. Encontrou indiferença — e até certa vergonha — resultado dos golpes da vida que, pouco a pouco, nos endurecem. Às vezes, sem perceber.

Quem carrega privações, restrições que não são apenas materiais, mas também afetivas, não muda de um dia para o outro só porque é tempo de festa. Por mais significativo que seja o Natal. As marcas da vida em muitas pessoas permanecem visíveis, profundas. Denunciam distâncias sociais, injustiças, sofrimentos que não cabem em embrulhos coloridos.

Fica, então, o convite à reflexão. Que o Ano Novo seja, de fato, melhor para todos. Que traga mais fraternidade. Mais saúde — no sentido amplo da palavra. E que a esperança não seja apenas um adorno de fim de ano, mas um gesto cotidiano, praticado com delicadeza, como quem acredita que ainda é possível aquecer o mundo.

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