O baiano Fábio: Do caminhão de lixo ao pódio da São Silvestre


O baiano Fábio: do caminhão de lixo ao pódio da São Silvestre

                  – Celso Gagliardo

Aos 27 anos, Fábio Jesus Correia é hoje o orgulho silencioso da pequena Monte Santo, no sertão baiano. Um brasileiro nordestino como tantos outros que, um dia, dobraram o mapa do Brasil no bolso e seguiram rumo a São Paulo em busca de oportunidade, trabalho e dignidade. Chegou há pouco mais de seis anos, carregando sonhos — desses que não fazem barulho, mas pesam.

Na Bahia, ainda menino, já corria. Corria jovem, corria descalço. Em São Paulo, correu atrás do sustento. Tornou-se coletor de lixo, gari, profissão dura, honesta, invisível para muitos. Entre um saco plástico pesado e outro, entre o esforço diário e o relógio impiedoso começou a perceber algo curioso: seu corpo entendia a corrida. Sua fisiologia se ajustava ao ritmo, à passada, ao fôlego. Apostava corrida com o caminhão da coleta — e quase sempre vencia.

Foi assim, quase sem perceber, que o atletismo deixou de ser apenas impulso e passou a ser projeto. Vieram os treinos, sempre cercados de dificuldades com horários, ônibus, metrô, as longas distâncias vencidas antes e depois do trabalho exaustivo. Vieram as ruas como pista, o asfalto como escola, a cidade como desafio diário.

A dedicação, essa velha companheira dos que não desistem, fez o resto. Com coragem, força de vontade e resiliência, Fábio começou a se destacar. O gari virou atleta. Depois, apenas atleta. Seu nome passou a ser respeitado no meio esportivo. Liderou provas importantes do calendário nacional e deixou de ser surpresa para virar presença.

Na São Silvestre, essa majestosa corrida de rua que encerra o ano paulistano, Fábio já anunciara talento logo na estreia. Em 2022, ainda coletor de lixo, foi quarto colocado. Em 2023, vieram as lesões. Em 2024, o sexto lugar. Até que, em 2025, na edição histórica do centenário da prova, superou-se: terceiro lugar no pódio, deixando para trás atletas de países com longa tradição no atletismo e inúmeros concorrentes estrangeiros.

A humildade de origem e de formação não o impediu de usar os minutos de holofotes com consciência. Entre flashes e entrevistas, Fábio pediu mais atenção ao atletismo nacional, especialmente aos jovens em início de carreira. Faltam pistas, faltam espaços. Ele mesmo já foi impedido de treinar porque usava sapatilhas. Treina no asfalto, na USP, nas ruas — correndo riscos no trânsito paulistano. Sonha em treinar em regiões de maior altitude.

Deste nosso posto de observação, colocamos a lupa num detalhe essencial dessa São Silvestre: a trajetória de um moço que, apoiado pela mãe, descobriu em si a aptidão para correr. Para vencer distâncias, subidas íngremes, calor e chuva. Com passadas rápidas, cadenciadas e seguras — próprias de quem conhece a força das pernas, da mente e do coração.

Vence obstáculos com resiliência. Corre com propósito. Talvez estejamos diante de um novo grande nome do esporte nacional. Tudo indica que é só o começo.

Que venham apoio, estrutura e reconhecimento. Que Fábio possa, em breve, desafiar o quase invariável favoritismo africano nessas provas. Faz 15 anos que um brasileiro não vence a São Silvestre.

Quem sabe o futuro já esteja correndo à nossa frente — e seja baiano.                                                                          - 03 jan 2026 -

Comentários

Sérgio Zanini disse…
Perfeito!
Exemplo de dedicação - superação e, "exemplo" para muitos jovens de hoje.
Anônimo disse…
Falou tudo Celso👍
Anônimo disse…
Um lindo exemplo de dedicação e humildade. Excelente meu amigo.
Obrigado por nos presentear com suas crônicas

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