O torcedor símbolo e essa paixão chamada futebol


O Torcedor
 Símbolo e essa paixão chamada futebol

                       - Celso Gagliardo

Já fomos alvo de críticas por dedicar tempo ao futebol: assistir, analisar, discutir partidas — não apenas as do time do coração. Sou dos que acreditam que o futebol é mais do que um jogo. É paixão legítima, capaz de aliviar o peso do cotidiano, oferecendo respiros necessários e abstrações mentais saudáveis.

Observo, naturalmente, o comportamento dos torcedores como um todo. Há os fanáticos, os ardorosos, aqueles que chegam a vender bens pessoais para viajar e acompanhar o time em jogos decisivos — ou nem tanto. Um fascínio difícil de explicar, que em alguns casos beira a irracionalidade. Mas é justamente aí que mora o mistério e a força dessa devoção.

Entre milhares — nos grandes clubes, dezenas de milhares — sempre se destacam alguns. Pela fidelidade incansável, pela presença constante, pelo entusiasmo que não se apaga. São os chamados torcedores símbolo. Figuras que atravessam gerações e se confundem com a própria história do clube. Como a saudosa Conceição e o Mineirinho, da Ponte Preta de Campinas; José Carlos Roque, o Bozó, do Guarani; o comunicador Gustavo Tomazeli, do Rio Branco de Americana, ou o inesquecível Saponga, do XV de Piracicaba. Até a seleção brasileira teve o seu: Clóvis Fernandes, o Gaúcho da Copa, eternizado pela televisão, com seu bigode inconfundível e a réplica da taça nas mãos, acompanhando o Brasil em sete Copas do Mundo. Recorda-se também do João Coqueiro na A.E. Internacional da rua Santa Bárbara.

A reflexão surge a partir de recente nota do comentarista João José Bellani, de Santa Bárbara d’Oeste — autor de livros sobre o União Barbarense e o esporte local. Ele nos lembrou do falecimento, aos 90 anos, do torcedor símbolo do União Barbarense, o senhor Antonio João Guilherme, o Toninho Mineiro. O título lhe foi oficialmente concedido em abril de 2012, quando o União foi vice-campeão do acesso e retornou ao Paulistão. Toninho foi o terceiro a receber tal distinção, sucedendo o farmacêutico Antonio Teizen — quase sempre de terno, gravata e guarda-chuva — e o senhor João da Dita. Personagens marcantes das arquibancadas barbarenses, testemunhas vivas das conquistas e expressões puras de amor pelo alvinegro da 13 de Maio.

Do alambrado ou das quentes arquibancadas, com o rádio colado ao ouvido, sob sol escaldante, frio cortante ou chuva insistente, eles estavam lá. Perfilados com amigos e familiares, prestigiando o clube querido. Celebrando vitórias com o peito aberto ou digerindo, com resignação passageira, as inevitáveis derrotas.

São pessoas que se destacaram na multidão por suas características singulares. Figuras lendárias das arquibancadas, capazes de inspirar outros torcedores e, por isso mesmo, merecedoras da designação de “símbolo”.

Bellani observa ainda que um novo torcedor símbolo do União deverá ser alçado em breve. Atento observador e fiel registrador dos fatos, arrisca apostar nos nomes de Carlos Dalberto Festa, Carlos Roberto Baldassim e Maurício Tedesco — todos com méritos, aqui citados em ordem alfabética.

Aos fervorosos torcedores do passado e do presente, que condensam em seus rituais o amor maior pelo clube, fica nossa reverência. Pela forma como abraçam suas cores, pela altivez de seus gestos, acabam também inscritos, com honra, na história que o futebol teima em contar. ⚽


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