Viajando pelos números e sentindo-se um deles
Vamos amadurecendo sob a rudeza dos anos e a leveza das flores do caminho. A realidade, com o tempo, deixa de pedir licença: estampa-se. Grosso modo tudo se resume a um número. Somos um número.
Velho reclamão?
Ah.. então, vejamos: você vai ao médico, ele olha na primeira linha de seu prontuário está o seu DNA – não o “manual de instruções do corpo”, a molécula que carrega informações genéticas, mas a Data de Nascimento. E o A final é de antiga. O doutor fixa seus olhos ali e já ensaia suas (pré)-conclusões.
Em qualquer repartição querem nos qualificar. Nome, endereço e os números que carregamos: CPF, RG, etc... Agora unificam tudo na CIN-Carteira de Identidade Nacional, um número só. Continuaremos sendo um número.
Você luta por emprego, faz entrevistas intermináveis, capricha no currículo e consegue a vaga. Vibra. E vai lá ao DRH assinar contrato – recebe um número. Ganha matrícula – outro número. E ainda adota um crachá com mais um número, só teu. Mão de obra é número.
Organizamo-nos por números. Eles se espalham por todos os cantos e, quando percebemos, somos quase somente isso. Manifestam-se nas cobranças, nos boletos, nos endereços, nas equações que desafiam e encantam nossas vidas.
Sou um número.
Uma certa Prefeitura me incluiu na Dívida Ativa sem uma notificação sequer por um IPTU não pago - não recebi o carnê e esqueci. Numa consulta informal, pela Internet, a surpresa: execução de cobrança. Fui jogado ao rol de inadimplentes. Nenhuma consideração por anos de absoluta regularidade. Fidelidade, zero. Ali virei um número. E negativo.
Sou um número.
A médica antecipa a consulta. Eu tinha compromisso anterior que atrasou 45 minutos. Chego e sou barrado. “Nossa tolerância é de 10 min e o senhor foi avisado”. Nenhum olhar para a justificativa e aviso prévio. Nenhuma memória do histórico de chegar antes e esperar quieto enquanto a doutora se atrasava 30 ou 50 minutos. Consulta de convênio, se eu sair pouco importa, a agenda está repleta. Aqui sou um número. E doente.
Você vai ao teatro, ao estádio: o ingresso traz um número. Obedeça-o. No açougue a senha comanda seu tempo, sua paciência – sua vez nunca chega. No supermercado, depois de empurrar um carrinho cheio de esperanças, a moça do caixa lhe apresenta friamente outro número. Se não pagar, não leva. Números às vezes cruéis, quase fatídicos.
Os de raciocínio lógico parecem navegar melhor. Deslizam suaves entre planilhas e percentuais. Eu olho números com certa desconfiança.
Os aquinhoados materialmente convivem bem com grandes números nas contas bancárias. Rendimentos que se multiplicam e boletos que desaparecem no débito automático. Fluxo de caixa folgado. Esses números quase sempre vêm acompanhados de um discreto sinal de +.
Minha professora mostra que música é matemática pura. Acredito, mas como pode algo tão sublime como música ter raízes na frieza abstrata dos números, criados para quantificar, medir, ordenar e identificar?
Os alunos enfrentam números não apenas nas provas de matemática: suas notas – outro número – decidem quem passa, quem fica.
É claro: o número é indispensável ao desenvolvimento humano. Talvez este escriba é que tenha dificuldade com eles. O número, em si, não segrega ninguém. E no bolso, quanto maior, melhor.
O problema talvez seja o gigantismo de tudo – pessoas, cidades, estados, nações, negócios. Passamos a cultuar indicadores, acompanhar gráficos, enquanto as relações se murcham. Regras endurecem. Critérios se automatizam. E vamos nos sentindo apenas mais um número, - substituível, intercambiável, quase invisível.
Esta crônica talvez seja típica de quem carrega a própria DNA avançada. Um pensamento minimalista, saudosista – das conversas longas nas calçadas, das soleiras das portas com cafezinho, das praças cheias de gente conhecendo gente. Pobres e ricos próximos. Famílias se confraternizando e abraços sem medo. Solidariedade espontânea. Pouca ansiedade com o amanhã.
E sem pensar tanto em números!.
Celso Luís Gagliardo
- Profissional de Recursos Humanos, Gestão. Jornalista. Do blog celsogagliardo.blogspot.com - 28 fev 2026 -
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