Zé Maria, um barbarense "mais que" barbarense
Zé Maria, um barbarense “mais que” barbarense
A data de aniversário dele é próxima à de minha mãe, Luzia. Esta, no dia 6, e ele um dia depois, 7 de março. Por isso sempre me lembro de seu aniversário, também. E hoje, rabiscando esta crônica para o blog - esse depositário de tantas respiradas profundas da minha vida na querida Santa Bárbara -, a memória me levou a ele outra vez.
Não vou dizer que José Maria de Araújo Junior seja uma “quase unanimidade” como a gente chama certas figuras públicas. Quem se envereda pela via institucional dificilmente colhe admiração ampla. O coletivo é terreno espinhoso – vemos isso até nos pequenos condomínios. Muitas vezes, decisões tomadas, ou o próprio destaque, despertam não aplausos, mas inveja e desafeto.
Mas Zé Maria é um barbarense daqueles “mais do que barbarenses”. Desde cedo atento às questões da comunidade, próximo das lideranças de setores vários, opinando, influenciando, participando. O espírito público já lhe fervilhava nas veias.
Minha amizade com o Zé vem de longa data. Muito antes dele entrar na vida pública eram comuns os bons papos sobre política, a cidade, o futebol - o nosso Corinthians -. Longas pautas.
Iniciou a vida profissional antes da mim, mas de igual forma - tipógrafo, compondo letra por letra textos de personalidades para o pequeno semanal Jornal do Povo, ligado ao então prefeito Dirceu Dias Carneiro. Buliçoso por aprender, tornou-se também impressor, função que lhe deixou marcas permanentes na mão, fruto de um acidente de trabalho.
Esse início certamente acendeu a vocação pública de Zé Maria, que já admirava o prefeito da então pequena Santa Bárbara, Dirceu Carneiro, e sua administração quase artesanal. Em podcast à Rádio Luzes, recordou que o prefeito usava pequenos bilhetes, como para a farmácia atender o cidadão necessitado de remédios. Tempo de proximidade e confiança.
Trabalhou também na redação do jornal “A Comarca”, de Americana, então instalado na avenida Antonio Lobo. Apesar das buscas, não conseguiu encontrar exemplares que lhe devolvessem aquele tempo em papel e tinta.
Desportista, jogou futebol com certa habilidade no meio de campo, no amador, no time dos amigos, a Pharmácia, e também na A.E. Internacional, e no primeiro ano de profissionalismo do União Barbarense. Era articulador de jogadas nos gramados, como na vida. Impetuoso, não fugia de uma “boa briga” e nem das divididas. Nem no futebol, nem fora dele.
A intensa militância política lhe rendeu alguns antagonismos, naturais do embate democrático. O tempo, porém, tratou de apaziguar muitas dessas dissensões.
Foi adversário político de Isaias Romano, o Romaninho, em disputas de ideais e espaços partidários. Mas tarde, chegou a homenageá-lo ainda em vida, dando seu nome a importante Avenida da cidade. Na ocasião, o homenageado, com bom humor, recordou que as “caneladas” haviam ficado para trás. Bandeira branca.
De vendedor de tecidos numa velha Kombi, batalhando de cidade em cidade, conheceu o mercado têxtil por dentro, até tornar-se empresário do ramo. Aplicou sua visão empreendedora e se estabeleceu por longos anos no Distrito Industrial com a Têxtil Jomara.
Participativo na comunidade, ativo como membro do Lions Clube. Foi presidente do Clube Barbarense. A liderança era traço natural. Ingressou na vida pública e, mesmo sem passar pela vereança elegeu-se prefeito de Santa Bárbara d´Oeste no ano de 1982. Foi reconduzido ao Executivo por mais dois mandatos, com aprovação popular. Fôlego político incomum, governou a cidade por 14 anos.
Ao lado de Romaninho é, certamente, um dos nomes que mais realizaram pelo município, período de intenso crescimento e desafios, especialmente com o advento da “nova cidade” que se formava na Zona Leste, na conurbação com Americana.
Seus mandatos foram marcados por avanços na área de Saúde, Educação e Habitação. Implantou Creches, EMEIS, Postos de Atendimento e Pronto Socorro e fortaleceu a Santa Casa/Hospital. Enfrentou a escassez de água e as carências dos bairros da divisa - desafios que ele considera “memoráveis”. Realizava reuniões em salões de Igrejas, discutindo planos comunitários de asfaltamento, explicando projetos e pedindo apoio da população. Olho no olho.
Influenciou decisivamente para que o Tivoli Shopping fosse construído na divisa do município, em local estratégico. Enfrentou ainda árduo pleito junto ao Governo do Estado para evitar que a Rodovia dos Bandeirantes “invadisse” a cidade e cortasse bairros urbanizados como o Mollon. O traçado acabou desviado pela zona rural, contornando a cidade e ampliando oportunidade de investimentos e industrialização.
Entre mandatos no Executivo, elegeu-se Deputado Estadual, representando a cidade por dois anos na Assembléia Legislativa. Mas voltou a “prefeitar” - Zé Maria nasceu para realizar, fazer, executar. As articulações construídas no Legislativo trouxeram frutos para o município.
Teve apoio fundamental da família, especialmente da esposa Jandira, fiel escudeira, mulher forte que sempre liderou projetos sociais e fortaleceu festas populares em benefício das Entidades. São muitas as histórias. Como aquela noite em que o cantor Amado Batista demorava para chegar ao show na região da Cidade Nova, Pérola e Mollon. Havia tensão, quando finalmente apareceu - dormindo no banco de trás do carro - não estava bem. Jandira, firme, decretou que ele cantaria de qualquer jeito, nem que precisasse de um banho, antes. E o show aconteceu.
Agora, completando seus 85 anos, Zé Maria segue ativo nos negócios com os filhos e desfruta as sobremesas da vida - os netos. Leitor voraz desde o tempo da revista Seleções, sempre ligado às comunicações, chegou a ter jornal impresso, o Jornal D´Oeste, hoje extinto como tantos outros impressos do interior. Criou e mantém com o filho Felipe a Rádio Luzes (FM 80.7 e AM 1360) e a Jomara Colchões.
Tem como ídolos o pai, José Maria Araujo, a quem reverencia como exemplo. E na política o ex-governador Mário Covas, de quem se tornou amigo e admirador nos bons tempos do PSDB.
Certamente deixamos de mencionar inúmeras outras facetas, causos e conquistas desse barbarense. Mas fica o registro, mínimo, do que a memória não apagou. Um cidadão e amigo que fala o que pensa. Figura marcante dos meios barbarenses, que não se perdeu com os perigos da vaidade. A cidade – para quem saber ver - lhe agradece.
Celso Luís Gagliardo
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