De suas mãos nasceram o equivalente a uma cidade
De suas mãos nasceram o equivalente a uma cidade — Celso Gagliardo —
A internet, que tantas vezes nos dispersa e estimula a perda de tempo, também nos oferece insights preciosos. Dia desses, assisti, quase por acaso, a um recorte de podcast que marcou. Tinha a ver com a minha querida Santa Bárbara d’Oeste — e com uma de suas personagens especiais: a médica Maria Luisa Bignotto Cury.
Procurei o amigo Bachin Júnior, conhecido homem das comunicações, que me facilitou as informações a partir de homenagem prestada pela Câmara Municipal à dra. Maria Luisa, durante as comemorações do Dia da Mulher, em 5 de março de 2024. Ele a indicou como uma das Mulheres Destaques daquele ano.
Barbarense, caçula de sete irmãos, Maria Luisa é filha de José Bignotto e Isabel Teixeira Bignotto, ligados ao ramo têxtil. Desde muito pequena, mostrava-se ativa, curiosa, com aquela inquietação bonita de quem quer aprender. Aos nove anos, já frequentava as obras de construção do Hospital Santa Bárbara, acompanhando o tio. Ali nasceu o sonho: tornar-se médica e trabalhar no hospital de sua cidade. Havia um longo caminho — e ela nunca o perdeu de vista.
Na época, eram poucas as faculdades de Medicina. Foi praticamente obrigada a se mudar para Pouso Alegre, em Minas Gerais, ao ser aprovada na primeira turma da Faculdade de Ciências Médicas da cidade. Viveu em pensionato, dividindo seus dias entre estudo intenso e disciplina.
A vida, no entanto, gosta de surpreender. O desafio de cursar Medicina, longe de casa, não se limitou ao aprendizado do ofício. Foi ali que conheceu um jovem que lhe conquistou o coração, levando-a ao altar. Tornou-se esposa do saudoso dr. Carlos Ivan Cury — a quem tive o prazer de conhecer e com quem trabalhei nas Indústrias Romi. Dessa união nasceram três filhas — Anna Isa, Raquel e Marília — e, mais tarde, cinco netos, as doces “sobremesas da vida”.
Formou-se em 1974, como médica, especializada em Ginecologia e Obstetrícia. Voltou à terra natal para viver e exercer a profissão, realizando o sonho que nascera na infância.
Até hoje atende em seu consultório particular e cumpre plantões pelo SUS no Hospital Santa Bárbara. Maria Luisa construiu uma carreira pautada pelo amor — fiel, inclusive, à origem da palavra “obstetra”, do latim obstare, que significa “estar ao lado”. E foi exatamente isso que fez: esteve ao lado de milhares de mulheres, orientando, e trazendo vidas ao mundo. Testemunha do primeiro choro, guardiã de começos.
Calcula-se que tenha realizado cerca de 25 mil partos ao longo de sua trajetória em Santa Bárbara d’Oeste. Se reuníssemos todos esses bebês, teríamos a população de uma pequena cidade — como Iracemápolis, Engenheiro Coelho ou Brotas.
Ela deu vida a muita gente. Ofereceu segurança a mães aflitas, transformou dúvidas em confiança, medo em esperança. A obstetrícia é feita de histórias — e cada uma delas carrega um momento que nunca se apaga. Por isso, Maria Luiza é merecedora do carinho e do reconhecimento: pelo compromisso com o instante sagrado do nascimento.
Uma história singular. Uma mulher que ama o que faz, que cuida, que promove saúde com ética e respeito. Uma vida que merece aplausos. De suas mãos, nasceu uma cidade. Notável!
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