Galter, João — entre causos e papos
- Celso Gagliardo -
Há um fato quase inevitável na vida: reencontramos amigos — e até parentes distantes — nas despedidas. Foi assim no passamento do conhecido alfaiate barbarense João Duarte, em meados de abril.
João era desses profissionais que carregam o ofício nas mãos. Trabalhando o tecido com precisão, entregava ternos de caimento impecável. Seguiu ativo até pouco antes de adoecer e dizia, com justo orgulho, que vestira muita gente — entre eles, nomes conhecidos, como o campeão mundial de natação Cesar Cielo.
Entre cumprimentos carregados de memória e saudade, durante o velório, recebi a ligação de Beni Galter. A voz, embargada, denunciava o tamanho da perda. Procurou-me, certamente, após ler a nota que publicamos na rede social.
Falou do amigo de juventude, companheiro de geração, e das afinidades que os uniam — especialmente o amor pela música, pela chamada “velha guarda”, onde ecoam vozes e composições que atravessam o tempo.
Esse gosto, aliado a um conhecimento curioso sobre as histórias por trás das canções, levou Beni ao rádio barbarense. Apresentou programas em diversas emissoras, sempre com boa audiência. Na Santa Bárbara FM, aos domingos pela manhã, era ouvido até em lugares distantes. Em algumas ocasiões, João — introspectivo, quase tímido — participava com comentários pontuais, mas sempre precisos.
Com o tempo, ganhou espaço e passou a comandar seu próprio programa, aos domingos à noite, dedicado à velha guarda. Fazia isso com evidente prazer.
Beni lembrava que João era fã confesso de Augusto Calheiros, o “Patativa do Norte”. Gostava de cantarolar, tentando reproduzir aquele timbre nostálgico, especialmente na canção Ave Maria:
“...cai a tarde, tristonha e serena, em macio e suave langor, despertando no meu coração a saudade do primeiro amor...”
E por falar em amor, vieram também as histórias.
Recordou os tempos dos 18 anos, quando, como tantos jovens de Santa Bárbara, iam a Americana “fazer a praça”. Iam de ônibus, aos fins de semana, movidos pela curiosidade e pela esperança dos encontros.
Foi ali que surgiu um pequeno drama: João começou a conversar com uma moça americanense, mas, pouco depois, conheceu Amália — e apaixonou-se. Dividido, não sabia como se desvencilhar da situação.
Beni, mais resoluto, desenhou um roteiro elegante para o amigo encerrar o caso. João, desconcertado, respondeu:
— Você fala assim porque não é você que tem que ir lá e falar...
Na terceira tentativa, pediu ajuda:
— Vai comigo.
E foi assim, meio encabulado, que João conseguiu despedir-se com dignidade. Livre, entregou-se ao amor por Amália Bigoto, companheira de toda a vida.
Beni ri ao lembrar do episódio. Diz que, naquele dia, foi um “cupido às avessas”.
Nos programas de rádio, além de tocar músicas, gostavam de contar suas origens. Uma das preferidas era a do samba “Ai que saudades da Amélia”, nascido no tradicional Café Nice, no Rio de Janeiro, reduto de jornalistas e compositores como Ataulfo Alves e Mário Lago.
Conta-se que um jornalista, solteirão, inconformado com a perda de sua dedicada ajudante doméstica, desabafava sobre a saudade da antiga companheira de rotina — simples e prestativa, substituída por uma novinha e cheirosa, mas "gastona e que nem sabe cozinhar". Do lamento sincero nasceu o verso que atravessou gerações.
A canção tornou-se um clássico. "Nunca vi fazer tanta exigência, / nem fazer o que você me faz / você não sabe o que é consciência / não vê que eu sou um pobre rapaz / Você só pensa em luxo e riqueza / Tudo o que você vê você quer / Ai meu Deus que saudades da Amélia/ aquilo sim é que era mulher..." Hoje, é provável que sua letra suscite debates — sinal dos tempos, das mudanças necessárias e bem-vindas na forma de ver o mundo.
E assim, entre causos, risos e memórias, vão se compondo as despedidas.
João Duarte era homem de boas amizades, de conversas mansas e histórias bem contadas. Talvez seja essa a medida mais justa de uma vida: aquilo que permanece nos outros.
Fica, portanto, não apenas a ausência, mas o eco dos encontros.
Gratidão, Beni, pelas memórias. E até um dia, João Duarte.
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