Somos todos atores do mundo digital
Somos todos atores do mundo digital
- Celso Gagliardo -
No passado, cidades menores contavam com um ou outro jornal — periódico, normalmente — e alguma emissora de rádio como principais meios de divulgação. Hoje, o mundo das comunicações se transformou de forma abrupta. A internet descortinou um horizonte amplo, permitindo que pessoas divulguem seus negócios, rotinas, alegrias, prosperidade — e até angústias compartilhadas.
Houve uma democratização da informação. Muitos passaram a ter canais livres para receber e transmitir conteúdo, conectar-se. Somos agentes ambulantes de um mundo em que, a cada esquina, há uma câmera aberta, gravando. Sem os cuidados dos profissionais da comunicação, porém, muitas dessas informações chegam de forma parcial, entrecortada — e, pior, às vezes plantadas para enganar ou satirizar. Não por acaso, o termo fake news se popularizou.
Vivemos tempos de teatro aberto. Estamos todos em um grande palco virtual, onde, a qualquer momento, podemos surgir como protagonistas ou figurantes no Facebook, Instagram, TikTok ou YouTube. E nem todos sobem ao palco por vaidade. Muitos o fazem por sobrevivência — profissional ou simbólica. Há uma sensação difusa de que, se não nos comunicarmos nas redes, desaparecemos.
Hoje, qualquer atividade exige visibilidade. Vender hortifruti, carros, imóveis, livros ou serviços — tudo passa por essa vitrine digital que já não pode ser ignorada. E haja criatividade: vídeos, áudios, conteúdos dinâmicos para capturar a atenção de uma plateia bombardeada por estímulos.
Se, por um lado, a tecnologia encanta e amplia possibilidades, por outro, aprofunda distâncias. Cresce o fosso entre os inseridos e os excluídos digitais. Nem todos conseguem acompanhar esse ritmo. Há quem ainda enfrente dificuldades básicas no uso de um celular — e essa limitação impacta diretamente sua autonomia.
Nossa amiga Ana Paula Assato, que trabalha com treinamento no uso de tecnologia, costuma dizer: hoje, o celular é quase uma extensão da vida. Nele tiramos dúvidas, consultamos o tempo, fazemos cálculos, registramos lembretes, lemos notícias, acessamos contas bancárias, pagamos contas, marcamos consultas e chamamos transporte. Um universo inteiro ao alcance de alguns cliques.
Mas nem todos cresceram nesse ambiente. O que parece simples para uns — usar WhatsApp, Instagram ou acessar serviços como o Gov.br — pode ser um verdadeiro labirinto para outros, repleto de senhas, códigos, atualizações e termos desconhecidos.
Quando um neto ensina o avô a usar o celular, constrói-se uma ponte entre dois mundos — e, mais que isso, devolve-se autonomia. Permite-se que ele fale com a família, resolva suas questões e participe das conversas sem depender de alguém. Mas é preciso cuidado: inclusão não pode virar imposição. Nem todos precisam dançar ou performar nas redes para existir.
A tecnologia mudou hábitos. Tirou, por exemplo, das agências bancárias o aposentado que gostava de ir ao caixa com sua papelada, pagar, receber, conversar. Por isso, é fundamental que haja quem ensine, acolha e incentive — especialmente os mais maduros — a navegar nesse novo cenário.
Mais do que aprender a usar ferramentas, trata-se de resgatar autoestima, dignidade e lugar no mundo.
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