Há aqueles que não poderiam morrer


              Há aqueles que não poderiam morrer      
                                                                                 – Celso Gagliardo –
                                                                              Falar sobre a morte não é do agrado de alguns. Pode trazer medo, insegurança, lembranças amargas. Conquanto seja a maior certeza, para esses é preferível viver intensamente aqui e agora, até o dia do “juízo final”.
Por outro lado, filosofar sobre o epílogo da vida pode significar, para outros, libertar-se do medo paralisante, permitindo viver com mais autenticidade, lucidez e liberdade no presente.
E aqui me recordo do mestre da escrita, o Chico Pinhaneli, que me iniciou na redação em tempos em que nem Faculdade de Jornalismo existia. Ele – de pena muito boa – muitas vezes alinhava em suas crônicas algo sobre a morte, chamando-a de megera indomável. Certamente porque é a megera definitiva, que não se curva a ninguém, e nós respondemos com o que podemos nos manter erguidos: a nossa postura diante dela.
O Criador nos deu talento. Cada um ao seu modo, com sua habilidade. Para todos – uns mais, outros menos. E esse talento acaba servindo ao próximo, invariavelmente. Daí, quando ele se vai, há um sentimento pesado de perda, de lamento. Foi o que aconteceu recentemente com o cantor Rick, falecido num acidente aéreo.
Todos nós temos vívido na memória nomes que nos fazem refletir: “Puxa vida, esse cara – ou essa mulher – não podia ter morrido!”. Pensamento utópico, mas que nos vem à cabeça e ressoa no coração. Pode ser o pai ou a mãe – talvez os maiores laços afetivos que temos –, mas nem só eles.
Às vezes, alguém que conhecemos na escola, no trabalho ou na convivência religiosa. Aquele tio bonachão e piadista, que descontraía e alegrava a todos. Aquele primo, líder nato, que sempre puxava os encontros, irradiando disposição. O Supervisor que era ouvinte primoroso – sabia simplesmente ouvir, acolher, sem julgar – e era admirado por isso. O amigo solidário ao extremo, parceiro das horas difíceis. Aquele outro, bafejado pelo sucesso material, que sabia multiplicar e conseguia repartir de várias formas.
Nem vamos aqui nos referenciar aos ídolos, aos famosos, cujas perdas repercutem internacionalmente. Pessoas que amealharam, ao longo da vida, conhecimentos e habilidades em nível superior, de difícil reposição, nas artes, nos negócios, na ciência, nos esportes.
A perda do convívio, a separação física, nos abate. E, muitas vezes, nós somente avaliamos na partida, com peso real e verdadeiro, o valor e os talentos de alguém. Já pensaram nisso?
Outro dia, conversando com o amigo Felipe, foi citada a finitude e seus efeitos. A morte é o ponto final da vida, como um grande rolo de filme de cinema, celuloide, a película analógica – os menos jovens vão me entender melhor. No início da sessão, estava cheio, pesado, forte. Vai se soltando, girando aos poucos, muito lentamente no início. Conforme o tempo passa, até parece que gira mais rápido. E assim o rolo da direita vai se encorpando, e o da esquerda se murchando, esvaindo-se, até o apito final. The end! Desliga-se.
Às vezes, o final vem ao longo da exibição, em pleno espetáculo, com o rolo esquerdo ainda encorpado. E aí a repercussão e o desencanto costumam ser até piores.
Entre o início de uma projeção e o seu fim, é que se apresenta e se desenvolve o espetáculo de nossas vidas – amigos, família, feitos, trabalhos, realizações, conquistas, conexões, fracassos, dívidas ou heranças.
O verdadeiro filme de cada um – colorido ou preto e branco, cinemascope ou não, dolby ou estéreo – compõe, em seu roteiro, as tantas páginas de uma história que acreditamos contribua para nos levar a um bom lugar na vida eterna, no descanso final.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Saudades da mãe, sentimento unânime

Viajando pelos números e sentindo-se um deles

Amigos fiéis, pontes e conexões