Quando o influencer faz um golaço
Quando o influencer faz um golaço
- Celso Gagliardo -
Sabemos que tudo evolui. Nada é estático e, naturalmente, costumes, valores e hábitos também mudam. Querer manter o passado como referência permanente é praticar um saudosismo que pouco acrescenta.
Todavia, há certas “evoluções” que mais se parecem involuções. Vejo com preocupação alguns dos “avanços” que chegam à camada mais jovem, justamente aquela que aprende rápido, absorve comportamentos e, muitas vezes, transforma em hábito aquilo que vê e admira.
É só observar a Internet, com seus tantos influenciadores, alguns de duvidosa intenção, estimulando comportamentos estranhos, músicas e danças maliciosas, para dizer o mínimo. Gente famosa anunciando jogos de bets, plataformas virtuais de apostas, como se tudo fosse apenas diversão. Não é. Para muita gente, especialmente jovens, pode ser o começo de um caminho de descontrole e prejuízos.
Mas não é somente nas telinhas que aparecem maus exemplos.
Outro dia, um candidato à Presidência da República, ativista de 42 anos, passou por Americana em campanha e, ao microfone, despejou palavrões e xingamentos contra um candidato local a deputado, chegando a ofender até a sua mãe. Muitos jovens o seguem e ele se apresenta como alguém diferente. Seu palavreado, entretanto, revelou uma agressividade que assustou e, para muitos, causou perplexidade.
O leitor certamente saberá lembrar outras situações em que o comportamento de parte da juventude preocupa. Afinal, são eles que estarão ocupando espaços de liderança amanhã.
Mas há também os influencers do bem. E aqui entra uma história que merece ser contada. Um jogador de futebol do Atlético Mineiro, Gustavo Scarpa, oriundo de Hortolândia, vem chamando a atenção por uma razão pouco comum no mundo da bola: é um leitor voraz. E resolveu mostrar isso nas redes sociais.
Um vídeo de cerca de dez minutos em que falou sobre um livro russo de 1886, A morte de Ivan Ilitch, de Tolstói, fez a obra chegar ao primeiro lugar entre os mais vendidos da Amazon. O surpreendente apego à leitura por parte de um jogador de futebol empolgou muita gente, que passou a acompanhá-lo.
E a história ganhou novos capítulos. Uma torcedora do Galo, Carolina Marques, também leitora, ampliou o alcance da iniciativa e criou nas redes sociais um grupo dedicado à leitura, o Galeitura. A onda cresceu. Torcedores de clubes rivais, inclusive do Cruzeiro, começaram a criar seus próprios grupos de leitura. Em Minas Gerais, já se fala até em levar a iniciativa às escolas e promover doações de livros.
Que a coragem e a disposição de Scarpa em mostrar seu lado cultural se multipliquem. Ele poderia estar do outro lado, talvez mais rentável, anunciando joguinhos e plataformas de apostas, como tantos fazem, ajudando a alimentar um problema que já leva sofrimento e prejuízos a muitos lares.
É a Internet aplicada para o bem, iniciativa genuína de um jogador de futebol que nos mostra que o espetáculo também pode acontecer fora das quatro linhas.
Sem a bola, Scarpa fez um golaço.
- Recursos Humanos, Gestão e Jornalismo -
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