A redação, rápida e bela. Nossa, ou da Inteligência Artificial
A
redação, rápida e bela. Nossa, ou da Inteligência Artificial
Celso Gagliardo
Vivemos tempos de facilidades pelas inúmeras ferramentas tecnológicas ao nosso alcance.
Temos visto propagandas de editoras – plataformas de inteligência artificial – anunciando a produção de um e-book completo entre 30 a 60 minutos. Alguns prometem entregar até o roteiro, a estrutura e a diagramação básica.
Impensável até há pouco. O autor ficava anos, às vezes, em pesquisas ou buscando inspiração para escrever um livro. Agora basta dar as linhas gerais da sua ideia e encomendar o serviço, que virá a jato.
Mas não é somente para escrever livros. A IA nos ajuda em quaisquer circunstâncias, até mesmo para construir uma frase de efeito. Em poucos segundos nos oferece várias opções. Eu mesmo submeto alguns de meus textos à verificação da ferramenta, para cortar palavras repetidas, melhorar alinhamento e até algum ajuste gramatical. Às vezes a IA sugere mudanças, que posso adotar, ou não, ou mesmo adotar em parte.
Recebo diariamente a mensagem de um monsenhor de nome Anibal, filósofo, abordando um tema. Ele, agora, está inserindo no final uma declaração de uso de Inteligência Artificial, em que esclarece que “o seu texto original foi aperfeiçoado e revisto com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial, para revisão gramatical, aprimoramento da coesão e coerência interna, reformulação e ampliação do conteúdo textual e suporte na busca bibliográfica”.
Certamente, uma questão de ética; não precisaria informar, mas o autor quer dar transparência. Deixa claro como o texto foi produzido e aperfeiçoado, e que assume responsabilidade pelas análises e conclusões. A IA pode errar, é preciso que o autor esteja atento para conferir, sempre.
Isso nos leva a uma reflexão. Quando devo informar que o texto sofreu alguma intervenção? É preciso, mesmo?
Recorri à própria ferramenta ChatGPT para responder à questão. Usar a IA como instrumento não elimina a autoria humana, mas quanto maior a contribuição da ferramenta para as ideias e a redação, mais importante se torna esclarecer seu papel.
Há uma diferença fundamental entre pedir ajuda para lapidar e dar fluidez a um texto que nasceu de nossa experiência e emoções, e delegar à ferramenta a criação das ideias centrais. Importa saber quem responde pelos pensamentos que chegam até nós.
A inteligência artificial pode ajudar a escrever. A honestidade continua sendo uma escolha de quem escreve, de quem assume a responsabilidade pelo resultado. Nós conseguimos discernir se a contribuição excedeu, a ponto de descaracterizar nosso pensamento, mesmo que a redação seja atraente. O texto ganha qualidade técnica e perde a identidade de quem a escreveu.
Não há regra fixa, mas pequenos ajustes, desde que preservada totalmente a ideia central do autor, não precisam ser informados. Agora, se houve intervenção no conteúdo, é interessante informar a contribuição externa. Como se fora uma coautoria.
São reflexões que se nos apresentam agora, tempos modernos. Uma tecnologia bendita, que está a serviço do pensamento humano, e não o pensamento humano a serviço dela.

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