Ideia improvável: festa do peão de Americana chega aos 40

 

Ideia improvável: festa do peão de Americana chega aos 40

                                                                    - Celso Gagliardo -

A história conta que as festas do peão no Brasil nasceram em Barretos, no ano de 1956. Antes mesmo de virar esporte, as habilidades vistas nas arenas faziam parte da rotina dos vaqueiros que viajavam com grandes comitivas de gado pelo interior do país.

O formato competitivo das montarias recebeu forte influência dos tradicionais rodeios norte-americanos, mas ganhou rapidamente identidade própria, incorporando o jeito caipira brasileiro, sua música, linguagem e costumes.

Americana, cidade moderna de porte médio, que viveu seu grande crescimento impulsionado pela atividade de fiação e tecelagem, tinha vocação urbana e perfil industrializado. Por isso mesmo, parecia improvável imaginar que ali pudesse surgir uma das mais importantes festas do peão do país.

Mas foi justamente dessa aparente contradição que nasceu a ideia.

Um grupo de amigos, acostumados a cumprir a promessa de seguir montados a cavalo até Bom Jesus de Pirapora, começou a discutir a criação de uma festa inspirada nos rodeios do interior. Os mais entusiasmados incentivavam os mais reticentes. Afinal, como reagiria uma cidade cosmopolita a um evento daquela natureza?

O sucesso da festa de Barretos, o impulso dado pela televisão ao universo sertanejo e o interesse crescente de patrocinadores sinalizavam que havia espaço para esse tipo de iniciativa.

E em 1987 a Festa do Peão de Americana era anunciada por rádios, jornais, num modesto cartaz criado pelo publicitário André Bastelli e divulgada também pelo tradicional serviço de som de rua, sob a voz inconfundível de Zé do Prato, outro personagem querido que marcou época nas locuções de rodeio.

A escolha pelas instalações da FIDAM — Feira Industrial de Americana — mostrou-se acertada. O espaço utilizado para corridas de kart transformou-se em arena, recebendo arquibancadas improvisadas e um público curioso. As atrações musicais foram Nalva Aguiar e Cesar & Paulinho. O sucesso veio já no primeiro ano.

Logo se percebeu que existia uma memória afetiva escondida naquela multidão urbana. Muitos moradores da região haviam deixado pequenas cidades do interior, mas não abandonaram o gosto pela arena, pela música sertaneja, pela conversa entre amigos ao redor das barracas e pelo ambiente típico das festas populares.

A Festa foi crescendo ano após ano. Tomou o estacionamento da Fidam, ocupou áreas cobertas e até avenidas passaram a ser fechadas para abrigar a estrutura do evento. Barracas, lanches, comidas típicas, churrascos, doces, fast foods em praça de alimentação passaram a fazer parte da experiência. Afinal, festa do peão também é encontro em volta da mesa, noites em que a dieta tira folga sem pedir desculpas.

O Clube dos Cavaleiros de Americana adquiriu então uma área às margens da Via Anhanguera, inicialmente destinada aos animais das montarias. Aos poucos, o sonho de uma arena definitiva foi ganhando forma. Até que a construção fosse concluída, a festa ainda precisou funcionar provisoriamente em Nova Odessa, em área onde anos antes funcionara uma grande empresa têxtil e posteriormente um outlet.

Além das montarias com equipes renomadas e peões campeões nacionais e internacionais, outro fator foi decisivo para o crescimento da festa: a ascensão da música sertaneja no Brasil. Grandes nomes passaram pelos palcos de Americana, de Chitãozinho & Xororó a Ana Castela. A cada edição, os organizadores acompanham as tendências do mercado musical para contratar artistas capazes de atrair multidões e manter viva a conexão da festa com diferentes gerações.

Como acontece em grandes eventos do gênero, os rodeios também convivem com críticas relacionadas ao uso de animais nas montarias. Os organizadores defendem que os touros e cavalos recebem acompanhamento veterinário, alimentação adequada e preparação específica para as competições, seguindo normas de proteção e bem-estar animal.

Hoje, o Parque de Eventos CCA tornou-se realidade consolidada, recebendo também atrações de outros segmentos e passando por sucessivas melhorias estruturais. Ainda este ano deverá inaugurar um majestoso palco de alvenaria, com 40 metros de comprimento, 25 de altura, três pavimentos, elevador e tecnologia antichamas, preparado para atender produções de padrão internacional.

E então junho chega novamente. As caminhonetes voltam a circular com música sertaneja ecoando pelas avenidas, os chapéus reaparecem, os hotéis lotam, os encontros se multiplicam. Por alguns dias, Americana troca parte de sua rotina industrial pela poeira simbólica da arena.

Talvez esteja aí o segredo improvável da festa. Uma cidade urbana, moderna e cosmopolita descobriu, há quarenta anos, que também carregava dentro de si algo do interior — da comitiva, do cavalo, da viola, das noites festivas e da memória afetiva de milhares de famílias que encontraram naquele rodeio um pedaço de pertencimento.

E assim, entre luzes, montarias, música, comilança e lembranças, a Festa do Peão de Americana chega aos 40 anos já não apenas como evento, mas como parte da identidade emocional da região.

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