Um vidro separa a vida que celebra da luta pela vida
Entre a vida que celebra e a luta pela vida Em uma noite de sábado qualquer, entre mesas lotadas, música ao vivo e brindes de aniversários, pensei em como a vida pode ser generosa.
Famílias reunidas, gente arrumada, amigos sorrindo, garçons indo e vindo com gentileza, comida farta, risadas espalhadas pelo salão. Havia ali uma celebração coletiva da existência, mesmo que ninguém percebesse isso conscientemente.
Agradeci em silêncio ao Criador pela possibilidade de estar vivendo aquele momento simples e bonito.
A minha posição favorecia observar outros ângulos. Através da parede de vidro do restaurante, via a chuva fina caindo lá fora. Mansa, contínua, quase invisível, perceptível apenas sob as luzes dos postes da avenida e tornando a noite úmida, aumentando o frio outonal.
E, pouco mais adiante, um hospital iluminado.
Da minha mesa era possível enxergar suas janelas acesas, indicando vidas despertas em meio à dor e preocupação. Imaginei pessoas buscando um diagnóstico, um alívio, um medicamento, uma esperança.
Pensei nos pacientes terminais e nos familiares aflitos. Em alguém sentado num corredor frio, depois de ouvir do médico que restam poucas horas para quem ama. E então, olhando para o alto, quase como numa oração desesperada, a pedir mentalmente: - Por que não paras, relógio?
Ali, separados por poucos metros de distância, conviviam mundos completamente diferentes: a festa, a chuva, o vai-vem na larga avenida, e a luta pela vida.
E talvez seja exatamente isso que torna a existência tão intensa, rica e misteriosa.
Por mais fortes que nos sintamos, ninguém sabe qual porta precisará atravessar amanhã.
A vida muda depressa.
Por isso, aprender a viver minuto a minuto talvez seja uma das maiores sabedorias humanas. Valorizar os encontros, os afetos, as pequenas alegrias e as boas ações.
Porque acordar mais um dia já é, em si, um grande presente.
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