A Usina Santa Bárbara se fechou, mas a Negadinha ficou



A Usina Santa Bárbara se fechou, mas a      Negadinha ficou

Celso Gagliardo

Quase toda cidade possui lugares cuja ausência ainda é lamentada. Uma casa, um casarão, uma indústria, um comércio ou um clube tradicional. O tempo, a evolução e os interesses que se transformam acabam sendo cruéis com os corações de quem guarda lembranças e conexões construídas nesses espaços.

Em Santa Bárbara d'Oeste, um dos marcos de maior identificação histórica é a antiga Usina Santa Bárbara. Fundamental para a economia local e para a geração de empregos, ela marcou a vida do município de 1914 até seu fechamento, em 1995. Foram 81 anos de intenso cultivo de cana, moagem, fabricação de açúcar e produção de etanol.

A grande Usina encerrou suas atividades e seus prédios acabaram transformados em ruínas silenciosas — o "Coliseu barbarense", como certa vez a definiu o professor Eide Froner, em um momento de desabafo. Silenciaram as moendas, os apitos e o vai e vem da Maria-Fumaça que auxiliava nos transportes. Silenciaram também os sons da Igreja de São Pedro, do cinema e até da torcida que vibrava no estádio Luizinho Alves, palco de histórias do CAUSB, campeão da Terceira Divisão do Estado em 1962.

Uma simbólica cortina desceu sobre aquele cenário e encerrou o espetáculo. Mas foi incapaz de apagar o brilho dos olhos de quem ali trabalhou, se divertiu, morou, criou filhos e netos. Os vínculos fortes que o passar dos anos não conseguiu amenizar a saudade. Permaneceram a lembrança da beleza rural, o cheiro característico do vinhoto, o caminho dos flamboyants, o Santão de braços abertos, a jardineira do Vadô em seu constante vai e volta e uma rotina de trabalho duro cercada de convivência, amizade e pertencimento.

Os "Amigos da Usina", tão bem retratados na bela canção de Sérgio Sárapo sobre a cidade, mantiveram esses laços vivos. O que começou com piqueniques ao ar livre em 1998 cresceu e deu origem ao tradicional encontro anual da Negadinha da Usina.  Hoje, a festa é aberta ao público, bastante concorrida, conta com o apoio da Secretaria de Cultura do município e com a participação de entidades sociais, utilizando parte das antigas instalações adaptadas para eventos.

Neste ano acontecerá a 28ª edição da festa, na véspera do Dia de São Pedro, em 28 de junho. Haverá Santa Missa, levantamento dos mastros dos santos, atrações artísticas e comidas típicas.

Será mais uma oportunidade de confraternização, especialmente para ex-moradores e principalmente seus descendentes, que vão ficando. Um momento para reencontros, recordações, histórias compartilhadas e homenagens àqueles que já partiram, mas que continuam presentes na memória coletiva da comunidade. Afinal, "Negadinha da Usina" é o nome carinhoso com que eles próprios aprenderam a se identificar.

A festa – idealizada e incentivada lá atrás por Jarbas Caetano, Josué, Zorinho, Maracanã, Natal, e tantos outros, - mostra que a vida é feita de ciclos. Os negócios mudam, as portas se abrem e se fecham, os tempos se transformam. Somente as histórias vividas e as emoções verdadeiras permanecem gravadas na memória e no coração das pessoas. E talvez seja justamente isso que a Negadinha celebra todos os anos: a força da memória afetiva e a preservação de uma identidade que o tempo não conseguiu apagar.

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