Finados, e o que a morte nos ensina




Finados, e o que a morte nos ensina

– Celso Gagliardo –

Já fui advertido para não ficar escrevendo sobre a morte. Mas o tema me é recorrente, especialmente na atualidade, dado que no início de novembro comemoramos Finados, dia dos mortos.

É o tempo de relembrarmos os entes queridos que se foram. Os cemitérios são mais visitados, alguns vão lavar as sepulturas, compram flores e as depositam em homenagem póstuma.

A morte nos revela muita coisa. Andar pelos cemitérios nos remete a divagações e nos projeta para a dura realidade da vida: há tempo para tudo, inclusive para a separação física.

Circulando entre túmulos, vamos lendo as plaquinhas, algumas já desgastadas pelo tempo, outras parcialmente danificadas pelos larápios do metal. Elas indicam nomes, sobrenomes e datas. Estas pouco importam. Mas os nomes e sobrenomes nos remetem invariavelmente à vida que pulsa lá fora.

E ficamos imaginando como tudo é frágil, passageiro e imprevisto. Há mais gente idosa sepultada, é verdade, mas também jovens, adolescentes e até bebês, chamados anjinhos. Não sabemos a ordem, nem se haverá inversão natural dela.

Os cemitérios são costumeiramente silenciosos. Ouve-se até canto de pássaros, e isso contribui para quem ali está, e vivo – tentando ser repórter da vida –, em busca talvez de interpretar as passagens terrenas.

E os nomes que se nos perfilam surpreendem: gente importante, empresários destacados, políticos, advogados, executivos, engenheiros, técnicos, comunicadores, mestres, pesquisadores, alinhados ali, ao lado de artesãos, domésticas, coletores, zeladores, auxiliares, ajudantes, andarilhos... Tudo zerado, sob jazigos diferentes, mas sob a mesma terra que a todos acolhe, no último ato.

Entretanto, em geral, o dia de Finados não se presta a essa análise sombria de um cronista provocador. É momento da oração, de nos lembrarmos das perdas de entes queridos, figuras que conosco conviveram e que, de alguma forma, participaram de nosso plano de vida, ensinaram, aprenderam, dividiram sonhos, conquistas e nos suportaram nas derrotas e infortúnios.

Agradecer com orações. Homenagear com flores. Nos cemitérios, ou num cantinho qualquer de silêncio, onde possamos nos conectar ao passado e trazer à memória quem partiu.

Há os céticos que não acreditam em nada disso. Quem morreu, acabou... e vida que segue. Até que chegue a nossa vez. E que ela seja bem distante, para que tenhamos maior oportunidade de melhorar enquanto seres humanos e cidadãos.

A morte, previsível e danada, nos assusta e entristece, embora seja apenas a passagem para a vida eterna. E nos ensina, deixa mensagens sutis, sub-reptícias. Basta querermos enxergar.

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